Consciente de que “A Violência não é Doméstica”, a Casa de Acolhimento Residencial da CEBI inaugurou, a 14 de março, o seu Ciclo de Tertúlias para 2019. Esta iniciativa também se insere no conjunto de ações de âmbito colaborativo que a CEBI está a desenvolver, tendo em conta a associação da Fundação ao Ano Nacional da Colaboração (ANC).

Esta primeira Tertúlia do ano foi dinamizada por Daniel Cotrim, Assessor Técnico da Direção e Supervisor das Casas de Abrigo da APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, “uma pessoa que nos fará sempre refletir e expressar sobre uma área onde o silêncio é cúmplice”. Foi desta forma que a Diretora do Departamento de Emergência Social (DES) da CEBI, Olga Fonseca, apresentou Daniel Cotrim, que, com palavras assertivas e esperançosas, considerou “a denúncia fundamental” para a “existência de respostas”.

É neste papel ativo de cidadania que, qualquer pessoa, “pode e deve ajudar”, envolvendo-se e estando desperto para a problemática, não tendo medo de comunicar os casos que, de alguma forma, pôde testemunhar. 

Com um discurso que fez a assistência refletir, o Assessor da APAV, com mais de 20 anos de experiência, deixou, no Ateliê Artístico da Fundação CEBI, o seu testemunho profissional e, necessariamente, pessoal. Real, cru e inquietante. “Chegam-nos mulheres completamente despedaçadas, que procuram desesperadamente um novo Projeto de Vida”, disse. Ainda que “a nossa Lei seja muito boa e inspire outros países da Europa”, precisamos de intervenções “fortes, coordenadas e que sejam fruto de uma governação verdadeiramente integrada”, explicou. “Já testemunhei casos de mulheres que me confessaram que na visita conjugal tinham sido violadas”, confessou. “As crianças e jovens são os mais vigilantes nos crimes de Violência Doméstica. São os primeiros a esperar o momento certo para socorrer os pais. São eles que sabem quando o gatilho vai despoletar. E, por isto tudo, deviam ser os primeiros a ser ouvidos”. 

“Todos seremos poucos para resolver este problema!”

Primeiramente a escutar e, depois, a participar, juntaram-se quase quatro dezenas de pessoas na Tertúlia, das mais distintas áreas de atuação. Ana Maria Lima, Presidente do Conselho de Administração da Fundação CEBI, partilhou com os presentes que “poderemos sempre estar mais alerta, ser mais humanistas e ficar mais despertos para a necessidade de atuação”. Sobre a prevenção, Daniel Cotrim defende que “é possível educar”, trabalhando áreas curriculares tão distintas como “a inteligência emocional, a igualdade de género ou os comportamentos relacionais saudáveis”. Mas, nesta matéria, “ainda investimos muito pouco ou nada”, desabafou. 

Sendo um problema social grave, em que urge a implementação efetiva de medidas de prevenção, de proteção e de punição, há que não ter medo de levantar o véu e de interromper um processo que, iniciando-se, por si só, não terminará. Quanto mais se falar sobre violência, menos doméstica ela será.

E, por isso mesmo, a reflexão proporcionada pela Casa de Acolhimento Residencial da CEBI “transforma Comunidades”. 

Certo de que “temos os mecanismos legais necessários para conseguir combater, com sucesso, esta problemática”, Daniel Cotrim apontou duas carências: “a falta de um planeamento estratégico – que previna, ao invés de remediar – e o compromisso de um trabalho sistémico”. 



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