"Tudo o que se se encontra no universo numa escala maior, reflecte-se no Homem numa escala menor. […] Podemos dizer que no Homem está reflectida toda a natureza" de Franz Bardon


Foi este o tema que nos propusemos tratar este ano no espectáculo da mostra final de dança –PAISAGENS, com os alunos do Colégio José Álvaro Vidal. O que nos liga à Natureza é o facto de sermos parte da própria Natureza e ela ser parte de nós. Somos dependentes de tudo e tudo é afectado por nós. 

Um espectáculo de dança é, curiosamente, um óptimo exemplo de grande interdependência dos diferentes elementos que o compõem. Pode haver tudo, mas se falha a música… pode haver tudo, mas se falta uma pessoa… há todo um sistema que é afectado e que tem de se adaptar continuamente a qualquer mudança. A noite de PAISAGENS foi de grandes surpresas e aprendizagens para todos os intervenientes, e em que, mais uma vez, se verificou que com esforço e unidade, grandes conquistas podem ser feitas.

No entanto, vivemos tempos em que tudo está seccionado e categorizado, e vejo essa tendência na forma como a humanidade se encara a si própria no mundo. Estas são algumas dicotomias comuns: nós e os outros. Homens e mulheres. Diferenças raciais. Os do nosso país e os de outros. Os da minha religião e os das outras. A humanidade e a natureza. Mas tudo o que a história e a ciência nos têm vindo a mostrar ao longo dos tempos é que, nestas dicotomias, são muito mais significativas as semelhanças que as diferenças.

Há algo de reconfortante na opção de olharmos o outro (humano ou não) como algo fora de nós. Porque se ele é diferente de nós, não sente o mesmo, não tem as mesmas fragilidades, desejos e aspirações. E se ele não sente o mesmo que eu, então eu não tenho de me sentir responsável por ele. O “ele” facilmente cai na esfera do abstracto. E isso é confortável. Mas também não propulsiona ninguém para a acção, mesmo quando esta é necessária.

Tradicionalmente, a humanidade encara-se como centro de tudo, e o resto da natureza como algo ao seu serviço e para seu usufruto. O planeta não passa de uma fonte de recursos. De acordo com Thoureau, a relação que estabelecemos com a natureza nada mais é senão um reflexo da relação que estabelecemos com o próximo e connosco mesmos. 

Em PAISAGENS não se levantam questões de racismo, xenofobia ou especismo, que são fruto da exaltação das diferenças. Em PAISAGENS só quisemos exaltar as semelhanças, exaltar o que nos liga ao mundo, ao que podemos aprender sobre nós próprios se aceitarmos que somos partículas minúsculas de um todo grandioso. Um todo que só poderá começar a compreender-se através de um olhar atento ao âmago do que é ser-se humano, como parte de um universo que existe tanto em mim como eu nele.


NOTA: Este texto foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.



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