A primeira infância é um momento de grande importância em que ocorrem rápidas mudanças, estando o desenvolvimento da estrutura cerebral mais susceptível à influência das relações e das experiências vivenciadas. Como tal, interferências significativas na vida das crianças com idade inferior a 3 anos podem prejudica-las limitando o seu futuro, muitas vezes de forma drástica e permanente.

Hoje em dia, no panorama de protecção à primeira infância, já se vão abrangendo um conjunto diversificado de políticas e serviços destinados a fortalecer a capacidade das famílias para enfrentar os desafios que as adversidades, por vezes, lhes acarretam e para as apoiar no desempenho das funções parentais, na senda de um desenvolvimento saudável e sustentável dos seus filhos.

Meio século de pesquisas e de avaliações tem demonstrado repetidamente que serviços de primeira infância eficazes são fundamentais para garantir a salvaguarda das crianças que enfrentam dificuldades, ficando em situação de risco ou, mesmo, perigo.

A notável expansão de novos conhecimentos, sobre o desenvolvimento cerebral nos primeiros anos de vida, vem reforçar a necessidade de novas ideias, programas, serviços e soluções inovadoras para alguns dos desafios mais complexos que os pais, e a comunidade em geral, enfrentam. Contudo, devendo esses esforços ser incentivados, por si só não são suficientes.

Os resultados da investigação nas ciências comportamentais e sociais e as recentes descobertas em neurociência, biologia e epigenética devem congregar-se para ajudar a compreender como se processa o desenvolvimento saudável, o que pode compromete-lo e o que pode ser feito para restaurá-lo.

Sabe-se já que factores como o investimento cuidado (e assegurado) no relacionamento prestado por figuras parentais responsáveis, estimulação precoce e experiências positivas são pilares na construção de uma equilibrada arquitectura do cérebro das crianças. Proporcionar, desde cedo, os apoios certos para o desenvolvimento saudável das crianças produz melhores resultados do que tentar corrigir problemas mais tarde.

Contudo, a ciência, por mais interessante que seja, não nos diz que tipos de serviços e políticas são mais eficazes para assegurar (ou restaurar) a trajetória de desenvolvimento para crianças que enfrentam e crescem em ambiente de carência (seja ela qual for).

Não obstante, é reconhecido que uma intervenção alicerçada em programas que fortaleçam as competências parentais, dos Professores e Educadores, dos prestadores de cuidados à infância, bem como a promoção de estratégias que estabeleçam metas claramente definidas e de apoio às famílias – nomeadamente ao nível da habitação, da protecção social, da saúde – podem orientar a melhoria contínua na qualidade de uma ampla gama de políticas e programas socioeconómicos. Os impactos dos mesmos estão documentados e incluem um nível de escolaridade mais elevado, menor índice de gravidez na adolescência, aumento da produtividade económica e redução de comportamentos criminosos (entre outros).

Podemos e devemos fazer melhor, particularmente no que concerne a crianças nos três primeiros anos após o nascimento. Acreditamos que as melhores práticas devem ser um ponto de partida, mas não são o destino final. E que o trabalho concertado entre diferentes saberes e organismos pode estabelecer redes de segurança para um melhor, mais transparente e mais justo desenvolvimento.

A história ensina-nos que as maiores inovações, muitas vezes, decorrem da conexão de ideias já existentes em novas formas de actuação. 

A terminar, há que lembrar que a compreensão científica dos impactos das primeiras experiências no cérebro em desenvolvimento alertam para três factores fundamentais:
• As primeiras experiências afetam a vida física e a saúde mental, não apenas aprendizagem;
• O desenvolvimento saudável do cérebro requer proteção ao stress excessivo, não apenas enriquecimento num meio ambiente estimulante;
• Alcançar resultados inovadores para as crianças que enfrentam adversidades significativas exige que apoiemos os adultos que cuidam delas, no sentido de modificarem as suas próprias vidas.

A possibilidade de progresso na nossa capacidade de melhorar as perspectivas de vida de todas as crianças é real. O tempo para agir é agora - de forma realista e construtiva, honrando o dito "Superior Interesse da Criança”, hoje em dia por tantos usado em prol de outras audiências que não a de uma comunidade que seja um lugar melhor e mais feliz para todas as crianças. Um mundo melhor faz-se construindo e não criando o caos onde ele não existe. Convidamos, pois, todos os que compartilham este sentimento connosco, a juntarem-se a nós nesta viagem pelo país da realidade das crianças onde elas mesmas são as maravilhas. Como? Ouvindo-as, respeitando-as e dando-lhes a mão para bem crescerem.


TEXTO | Olga Fonseca, Diretora do Departamento de Emergência Social da CEBI
[Este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico]



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