No âmbito da atribuição do “Dote IPSS do Ano” à Fundação CEBI, estivemos à conversa com Pedro Aragão Morais, Coordenador do Diretório Sector 3 – uma plataforma online que criou em 2007. O seu sonho é simples: “tornar o Portal num Projeto transversal no panorama do Terceiro Setor em Portugal”. O Sector 3 apresenta-se como uma ferramenta de e para Instituições Particulares de Solidariedade Social, o que, para o Licenciado em Administração e Gestão de Empresas, se constitui num desafio constante, que necessita de “investimentos fortes e construtivos” em benefício exclusivo “das Instituições filiadas”.

D - Como é que nasceu a ideia de criar uma plataforma de Instituições Sociais?
Em 2007, quando a ideia começou a germinar, era notório que a informação disponível na Internet sobre as Instituições Sociais estava muito dispersa e desatualizada. Nessa altura, quem pretendesse coletar dados da especialidade, recorrendo aos motores de busca convencionais, enfrentaria sérias dificuldades para o conseguir. Naquela época, constatei que nem sequer as Entidades melhor posicionadas para o fazer - congregadoras e representativas de importantes segmentos do Setor - como por exemplo, a CNIS, a CASES, ou as UDIPSS, tinham desenvolvidas plataformas web suficientemente eficientes e eficazes. Por outro lado, reinstalado em Lisboa, eu trazia na bagagem conhecimento empírico sobre Desenvolvimento Local, assim como a enorme vontade de poder continuar a contribuir para o empoderamento das Instituições de Solidariedade Social. Já em 2009, quando decidi criar uma empresa de consultoria especializada no Terceiro Setor, ela passaria sempre pelo desenvolvimento de uma plataforma web, de e para as Instituições Sociais de todo o território nacional. Para o arranque do Diretório Sector 3, contei com a generosa e imprescindível colaboração da conhecida agência “Partners”.

D - Em sua opinião, quais são ainda as principais lacunas do Terceiro Setor em Portugal?
Eis uma daquelas perguntas mesmo complicadas de responder em poucas palavras. Em primeira instância, numa perspetiva macro, coloco em destaque a falta de elevação da nossa classe política e sua persistente incapacidade para traçar rumos claros e assumir compromissos duradouros para o Terceiro Setor, nas suas diferentes dimensões – Saúde, Educação, Ação Social e Cultura. Lamento muito que, por exemplo, não tenha sido possível prever a figura da “Empresa Social” na Lei de Bases da Economia Social, em vigor desde 2013. Depois, num plano intermédio, evocaria a necessidade premente de se desenvolver o emergente mercado do Investimento de Impacto Social: do lado da procura, mediante capacitação dos agentes financeiros para captar fundos de poupança privada de aplicação em investimentos de impacto e do lado da oferta, perante todo este boom de “inovadores e Empreendedores Sociais”. Por fim, ao nível micro das Instituições, evocaria, telegraficamente, três palavras chaves-de-sucesso: cooperação, voluntariado e impacto.

Mais cooperação entre instituições para se ganhar escala e aproveitar sinergias. Melhor gestão do voluntariado com sentido na criação de valor. Medição dos impactos gerados para se alcançar níveis de eficiência/eficácia superiores e atrair os investidores Sociais.

D - Diretório começou em 2010 com seis Instituições registadas. Hoje são mais de 60. Como tem sido este caminho?
Tem sido um caminho, simultaneamente, exigente e estimulante. Um caminho de perseverança e resiliência, de visão a longo prazo, mas também de amor, de gratificante descoberta e encontros inesperados. Quando surge mais uma nova Instituição aderente ao Diretório Sector 3, ficamos muito satisfeitos. E mesmo a renovação do registo anual daquelas Instituições que já nos acompanham há mais tempo, também constitui sempre motivo de grande regozijo.

Somos como que uns peregrinos, por um lado, conscientes de ainda nos encontrarmos longe do nosso destino de sustentabilidade e, por outro, absolutamente convictos de estarmos no bom caminho.

D - Pode descrever-nos alguns exemplos da criação de valor que o Sector 3 já proporcionou a Instituições suas associadas?
A essência do valor que, permanentemente, se procura criar no Diretório Sector 3 pode traduzir-se no mero telefonema recebido da parte de um empresário interessado em saber mais, depois de ter ouvido na rádio um curioso spot a respeito de uma iniciativa de uma Instituição; ou também na súbita chamada de mais uma mãe aflita que, sem saber o que fazer perante o grave problema do filho, por acaso a partir dum post no Facebook, descobre a Instituição. Por outro lado, as designadas “Tertúlias Interpares”, no âmbito das quais juntamos à volta da mesma mesa profissionais representantes de diferentes Instituições, representam criação de valor em função direta do potencial de cooperação aproveitado. E já tem havido feedbacks concretos e positivos a este respeito. Também para a Instituição, o facto de pertencer ao Diretório Sector 3, pode algumas vezes significar a tomada de conhecimento atempado da possível candidatura a um concurso aliciante ou o alerta oportuno para uma nova Legislação acabada de publicar. E ainda o "Dote" Sector 3, um donativo em dinheiro anualmente atribuído a uma ou duas Instituições pertencentes ao Diretório.

D - Uma parte substancial das vossas associadas trabalham para a promoção da melhoria da qualidade de vida em áreas sensíveis como a Esclerose, o Cancro, a Toxicodependência ou a Paralisia Cerebral. São as que precisam de maior ajuda?
Na medida em que os beneficiários diretos dessas Instituições estão entre aqueles menos autónomos, ou mais dependentes de ajuda, realmente, podemos afirmar que no Diretório Sector 3 encontramos um leque particularmente significativo de Entidades cuja atividade será das mais exigentes de todas, em termos quer técnicos quer puramente humanos. No entanto, do nosso ponto de vista, Instituições vocacionadas para servir outras populações-alvo, nomeadamente na Educação ou na Cultura, não devem ser consideradas menos relevantes ou menos merecedoras de apoio. Na nossa plataforma web acolhemos variados tipos de Instituições que, de Norte a Sul do país, prestam assistência a distintos públicos, como Mães adolescentes e solteiras, Idosos, Crianças e Jovens em risco, ou Imigrantes.

A presença simultânea na nossa plataforma web de prestigiadas Obras Sociais de elevada credibilidade, como sejam os casos da Fundação CEBI e da APCL, ambas Instituições homenageadas na última edição do “Dote” da Sector 3, faz jus à idoneidade deste nosso serviço.

D - Quais são os objetivos a curto prazo para o Diretório?
Continuar a crescer no número de novas Instituições aderentes à plataforma, melhorando a sua capilaridade em termos geográficos e tipológicos. Para tanto, alterámos recentemente o regulamento do Diretório Sector 3, de modo a permitir que, além das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e Equiparadas, passem também a ser admitidas na plataforma quaisquer outras Entidades Sem Fins Lucrativos desde que com Utilidade Pública declarada.

Mas tão ou mais importante do que isto, com vista à sustentabilidade do Projeto, queremos aumentar as audiências do website a um ritmo mais acentuado do que aquele registado até aqui.

Para tanto, estamos a investir fortemente na construção de uma plataforma web de terceira geração, tecnologicamente muito mais evoluída do que a atual, com um design completamente renovado, mais apelativo, e ainda com um potencial de interatividade bastante superior. Naturalmente que, neste contexto de claro reforço do investimento no Diretório Sector 3, estamos a estudar a viabilidade de nele integrar a prestação de novos serviços em benefício de todas as Instituições filiadas, mas ainda é prematuro estar a revelar novidades a este respeito.



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