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TEXTO

PAULO GUERRA

JUIZ DESEMBARGADOR

DIRETOR-ADJUNTO DO CENTRO DE ESTUDOS JUDICIÁRIOS

*Este texto não foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

Cidadão Criança:

o mundo

a seus pés

edição

temática

EMERGÊNCIA SOCIAL

| DESPERTAR CEBI

Olhos viúvos de espanto

e sorriso titubeante perante a surpresa dos adultos -

o João Ninguém de toda a gente,

foi chamado aos palcos que dizem ser seus

e pediu, com a voz tombada no olhar,

uma chance de pena só,

um voo planado sobre a felicidade dos outros.

Os adultos viram-no chegar e arrumaram as canetas e os tinteiros

E trataram de desarrumar os cabelos

e de desembrulhar os brinquedos de corda

que o João nunca tinha visto...

Subitamente, o João suspirou,

pegou na mão da mãe

desceu as escadas daquele edifício sem flores

e pediu um sorvete de fambroesa,

repleto de lágrimas de nata

e soluços de amendoim,

correndo rumo ao parque

onde os outros ninguéns despenteavam os entardeceres

e se perfilavam em exército em busca da terra do Nunca,

onde os pedros voam, as fadas cintilam e as nanás têm nome de gente...

Os adultos arrumaram os cabelos, desfizeram-se dos brinquedos e voltaram,

enfim, a tratar de coisas sérias...

" - quantas vezes apostaste na tua vida?

- Apostei a minha vida mil vezes.

- Perdeste tudo?

- Quando nasci, já era a escuridão"

"Sabes, estou muito cansado.

Apetece-me dormir até morrer..."

(José Luís Peixoto - a criança em ruínas)